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Empresas rurais investem no e-commerce

Por Nestor Tipa Júnior*

Produtores e indústrias começam a realizar vendas na internet, mas crescimento ainda é considerado pequeno. O comércio via internet já virou rotina entre os brasileiros, que já se sentem mais seguros e veem credibilidade neste formato de compra. Segundo a E-bit, empresa especializada no fornecimento de informações do comércio eletrônico no Brasil, o crescimento das aquisições pela web foi de 28% em 2013 se comparado a 2012, chegando a um faturamento de R$ 28,8 bilhões contra R$ 22,5 bilhões no período anterior. Nos setores ligados ao agronegócio, o comércio eletrônico começa a ser visto como uma oportunidade, mas o crescimento ainda é tímido em relação a outros segmentos.

Quem tem mais se utilizado deste meio para realizar as transações pela internet são os produtos que chegam direto ao consumidor, como cafés e vinhos. No Rio Grande do Sul, um dos exemplos é a vinícola Campos de Cima, de Itaqui, que abriu em seu site um espaço para loja virtual e venda direta ao cliente final. Segundo o diretor comercial da Campos de Cima, Pedro Candelária, a ideia de fazer a venda direta pelo site veio por causa da preocupação com o preço do produto, considerado elevado no Brasil. Com isso, são eliminados os atravessadores, o que acaba diminuindo o custo da garrafa.

“Queremos chegar ao consumidor com um valor mais competitivo, e uma das opções foi a venda online”, explica. Candelária afirma que a loja virtual representou cerca de 30% das vendas da vinícola nos meses de novembro e dezembro do ano passado. “Isso sem contar pessoas que nos dizem que visualizam o produto na loja virtual e preferem contatos por telefone ou e-mail para comprar o vinho. Queremos esta proximidade maior com o consumidor, criando uma legião de amigos. Isso ajuda na fidelização do cliente”, completa.

Na pecuária, um dos principais exemplos vem de Uruguaiana. A GAP Genética, um dos mais tradicionais e reconhecidos criatórios do País, abriu um espaço em seu site para a comercialização de animais, o GAP Shop. O diretor comercial da empresa, João Paulo Schneider da Silva, o Kaju, afirma que o trabalho iniciou a partir de anos que a cabanha teve excesso de oferta e se decidiu apostar na nova ferramenta de vendas. “Com isso, coube bem criar uma nova forma de comércio, sempre procurando seguir uma tendência econômica, já que o e-commerce é um caminho de volta”, avalia.

A GAP tem no seu portfólio de criação animais das raças angus, brangus, hereford e braford além de cavalo crioulo. Os lotes selecionados, conforme Kaju, precisam estar de acordo com o padrão e a tradição centenária que a cabanha oferece aos seus clientes. “O animal que vai para o GAP Shop precisa ser de qualidade insuperável. E o filme e imagens precisam retratar isso”, ressalta.

Já na área de grãos, uma das principais iniciativas para o e-commerce de soja, milho, trigo, arroz, entre outros produtos, é a Fortisagro, com sede na cidade paulista de Barueri. O fundador e principal investidor da plataforma, João Batista Cardoso, já havia feito experiência semelhante no final dos anos de 1990, um dos principais períodos da bolha da internet, com a comercialização de trigo. Em 2011, decidiu retomar a ideia e criou a empresa. O objetivo é funcionar como uma facilitadora entre a oferta e demanda. “A única coisa que não estava na internet era a comercialização de grãos. Hoje, o produtor tem uma oferta, mas não consegue ter visibilidade”, salienta.

A plataforma reúne cerca de 1,8 mil operadores, de acordo com Cardoso, que vão desde produtores interessados na venda das mercadorias até tradings que buscam comprar o produto. O fundador reforça que o vendedor é que faz o seu próprio valor e que, comparado a venda por outros meios, o produtor pode ter um preço melhor do que os canais convencionais. “Nosso valor é 20% menor do que os dos corretores normais”, observa Cardoso.

Estrutura e cultura ainda são desafios para a modalidade virtual

O uso do comércio eletrônico pelo setor rural cresce lentamente devido à falta de informação. A afirmação é do consultor da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico (Camara-e.net), Robson Sotero. Segundo o especialista, os setores do agronegócio ainda têm receio quanto à internet. Entretanto, Sotero aponta algumas iniciativas como positivas para o uso desta ferramenta. Uma delas diz respeito a ações localizadas de pecuaristas que utilizam a web para a realização de leilões virtuais. Para o consultor, o entrave para o crescimento ainda é a estrutura de sinal. “Para este cliente utilizar a internet precisa de uma estrutura de plataforma de comércio eletrônico, que é diferente da usada em varejo. Se o criador fizer o leilão no sítio, precisa ter um link de pelo menos dois megabytes no local. O crescimento só vai ser possível quando tiver uma estrutura mais completa”, informa o consultor.

Já na comercialização de grãos e insumos, Sotero analisa que a questão esbarra na cultura dos produtores, que tem poder decisório na propriedade e ainda preferem os meios tradicionais de compra e venda. “Essa geração do agronegócio ainda está na mão de pessoas de mais idade. Os mais novos começaram a utilizar. Geralmente o site acaba sendo utilizado como forma de divulgação, pois este tipo de consumidor ainda prefere ligar e falar com o proprietário da empresa e fazer a solicitação”, avalia.

Consultor na área de pecuária, Fernando Velloso, da FF Velloso e Dimas Rocha Assessoria Agropecuária, dá como exemplo no comércio virtual de animais iniciativas que são realizadas no Uruguai. No país vizinho, as vendas são concentradas em três empresas – Lote 21, Plaza Rural e Pantalla Uruguay – e cada uma tem pelo menos 20 escritórios corretores que fornecem o gado para as empresas que realizam leilões virtuais. “Os criadores compram nesses leilões porque existe uma segurança na referência de valor de mercado. Os vendedores procuram disponibilizar o maior número de informações disponíveis, o que gera um sistema de maior confiança”, explica.

Fonte: Jornal do Comércio – AGRONEGÓCIOS Notícia da edição impressa de 17/02/2014

Aline Autran de Morais

Mestre em Administração com linhas de pesquisa em Omnichannel; Inovação em Marketing para o varejo; Marketing Digital; Gestão de Fornecedores. Especialização em Marketing, MBA em Gestão de Varejo e Gestão Empresarial. Mais de 20 anos de experiência em varejo de moda, tendo atuado como Gerente de Produto e Gerente de Gestão de Fornecedores na Lojas Renner, Gerente de Supply e Operações na Uatt?. Sócia-proprietária da Ideiamais. Professora na ESPM Porto Alegre e PUCRS.